
“Quiçaça” ou sub-bosque? Entenda antes de fazer a limpeza de uma área
Em propriedades rurais, é comum utilizar expressões como “limpar o mato” ou “retirar a quiçaça” para se referir à roçada ou retirada da vegetação que cresce abaixo das árvores. No entanto, dependendo das características da área, essa vegetação pode constituir o sub-bosque de um remanescente de vegetação nativa.
Por isso, uma intervenção que aparentemente seria apenas uma limpeza pode representar supressão ou alteração da vegetação nativa e estar sujeita à autorização do órgão ambiental.
O que é o sub-bosque?
O sub-bosque corresponde à vegetação que se desenvolve abaixo do dossel, ou seja, abaixo das copas das árvores de maior porte.
Ele pode ser formado por árvores jovens, indivíduos regenerantes, arbustos, ervas, cipós, samambaias e outras espécies que integram a estrutura da floresta.
Embora muitas vezes essa vegetação seja vista apenas como “mato” ou “quiçaça”, ela exerce funções ambientais importantes e participa diretamente da regeneração natural e da sucessão da floresta.
Muitas das árvores que futuramente formarão o estrato superior da vegetação começam seu desenvolvimento justamente nesse ambiente.
Retirar o sub-bosque é desmatamento?
A retirada do sub-bosque pode representar uma intervenção na vegetação nativa, mesmo quando as árvores maiores permanecem em pé.
Isso ocorre porque a vegetação florestal não é constituída apenas pelas árvores adultas. A eliminação sistemática de indivíduos jovens, arbustos e regenerantes modifica a estrutura e a dinâmica do remanescente.
Essa intervenção pode ocorrer por diferentes métodos, como:
- roçada mecanizada;
- roçada manual;
- corte da regeneração natural;
- destoca;
- retirada de arbustos e indivíduos jovens;
- limpeza sistemática do interior da vegetação.
Portanto, manter as árvores maiores e retirar toda a vegetação existente abaixo delas não significa, necessariamente, que a intervenção esteja dispensada de autorização ambiental.
Por que o sub-bosque é importante?
O sub-bosque desempenha diferentes funções ecológicas dentro de uma formação florestal.
Sua retirada pode provocar a eliminação da regeneração natural, redução da diversidade de espécies, alteração do habitat e dos recursos disponíveis para a fauna, maior exposição do solo e mudanças nas condições de umidade e luminosidade no interior da floresta.
Além disso, a retirada contínua da regeneração pode comprometer a capacidade de renovação do remanescente, pois impede que novos indivíduos substituam naturalmente as árvores mais antigas.
O que diz a legislação ambiental no Paraná?
No Paraná, intervenções envolvendo vegetação nativa devem observar as normas e procedimentos estabelecidos pelo Instituto Água e Terra – IAT, incluindo a Instrução Normativa IAT nº 05/2026, que estabelece critérios e procedimentos relacionados às autorizações para supressão de vegetação nativa.
Quando a área estiver inserida no Bioma Mata Atlântica, também devem ser consideradas as disposições da Lei Federal nº 11.428/2006 – Lei da Mata Atlântica e do Decreto Federal nº 6.660/2008, especialmente quanto à proteção e às possibilidades de intervenção em vegetação nativa nos diferentes estágios de regeneração.
Além disso, outras restrições podem existir conforme a localização e as características da área, como a presença de Área de Preservação Permanente (APP), Reserva Legal, espécies ameaçadas ou outras áreas ambientalmente protegidas.
Por isso, a possibilidade de realizar a intervenção deve ser analisada caso a caso.
Posso fazer uma roçada para “limpar” a área?
Antes de realizar uma roçada, corte ou qualquer outra forma de limpeza em uma área com características de vegetação nativa, é importante identificar que tipo de vegetação existe no local e qual é o seu enquadramento ambiental.
Uma área com árvores maiores espaçadas e muita vegetação regenerante abaixo delas pode parecer, visualmente, uma área que precisa apenas de limpeza. Entretanto, essa vegetação inferior pode fazer parte da estrutura de um remanescente florestal em regeneração.
Realizar a intervenção sem essa avaliação pode resultar em irregularidade ambiental, autuação, embargo da área e obrigação de recuperação ambiental, dependendo da situação constatada pelo órgão competente.
Antes de retirar a “quiçaça”, avalie a vegetação
O termo popular utilizado para a vegetação não determina seu enquadramento ambiental.
Aquilo que visualmente parece apenas “mato” ou “quiçaça” pode incluir regeneração natural de espécies nativas e componentes importantes do sub-bosque.
Por isso, antes de realizar a limpeza de áreas com vegetação nativa, o mais seguro é fazer uma avaliação técnica prévia, verificando as características da vegetação, as restrições existentes e a necessidade de autorização ambiental.
Uma análise realizada antes da intervenção pode evitar problemas no licenciamento da propriedade, autuações ambientais e custos futuros com regularização ou recuperação da área.
Preservare Consultoria Ambiental
Licenciamento ambiental, autorizações florestais e orientação técnica para intervenções em vegetação nativa no Paraná.
Regularidade ambiental começa antes da intervenção.